terça-feira, 6 de março de 2012

e eu?

Até os meus 13 anos, vivi em um pequeno núcleo urbano, como eles chamavam, chamado Carajás, no Pará. Essa cidadezinha fora construída pela Vale, para que seus funcionários morassem. A Vale já era uma conhecida e muito bem vista empresa, assim como quem trabalhava nela. Ninguém podia entrar na cidade sem autorização de uns dos moradores. Além disso, era, literalmente, com o uso correto da palavra, no meio da floresta amazônica. Crescer lá foi uma experiência incrível, uma dessas que poucas crianças têm acesso. Dormir sem barulho de carros, sem poluição, com medo de onça e não de ladrão. Era diferente mas eu não sabia. Poder brincar na rua livremente e aproveitar tudo o que ela tem a oferecer, da sujeira à liberdade, conhecer seus vizinhos profundamente... Tudo isso era incrível. Outro fator marcante era a sensação de singularidade e exclusividade que se sentia em relação a si mesmo por morar lá. Em um lugar tão peculiar e pequeno, apenas dois mil habitantes, onde todo mundo conhecia todo mundo, onde todos faziam parte de um projeto especial, onde todos te conheciam pelo nome e você não era apenas mais um. Eu era a Júlia, filha do Hernani e da Cristina. Ao sair de lá, me mudei para Maringá, no noroeste do Paraná, uma cidade muito agradável e bonita. Mas eu não mais podia brincar na rua, havia barulho o tempo todo, eu não conhecia meus vizinhos e pior, ninguém me conhecia. Essa sensação de perda de identidade, uma identidade tão especial, foi muito forte e me fez começar um processo de questionamento da realidade muito grande, que durou anos e ainda permanece em eventuais crises existências. Morei por dez nos em Maringá e conheci bastante gente, aprendi a viver lá, mas nunca foi a mesma coisa. Essa experiência deu um tom de suspeita a todas as outras que seguiram e me tirou algumas certezas e seguranças na vida. Mas teve seu lado positivo; Me fez crescer muito, me fez sempre seguir o que acredito ser correto e a sinceridade dos meus sentimento e pensamentos, que, no fim de tudo, são as únicas que acredito fielmente que existam. Não que sejam certezas, mas existem em mim.